SAÚDE SOB INVESTIGAÇÃO – O Instituto que o Estado dispensou é o que está na Saúde de Teixeira de Freitas
Publicado em 08 de junho de 2026

A mesma organização social que o governo de Jerônimo Rodrigues acaba de afastar de um hospital regional na Costa do Descobrimento, administra em Teixeira de Freitas, as unidades onde uma jovem mãe morreu recentemente e está sob investigação. O conselho de saúde do município havia pedido, por escrito, a anulação desse contrato antes mesmo dele ser assinado e foi ignorado. Na quinta-feira, esse conselho será, enfim, ouvido.
Em uma única semana, dois retratos da mesma marca. Em Porto Seguro, na Costa do Descobrimento, o governo do estado notificou a organização social que administra o Hospital Regional de Porto Seguro para encerrar o contrato, depois de o próprio monitoramento técnico oficial registrar inconformidades assistenciais, operacionais e administrativas na unidade. Em Teixeira de Freitas, a polícia abriu inquérito para apurar a morte de uma gestante no Hospital Municipal Sagrada Família, e a prefeitura, sob desgaste, trocou às pressas o comando da Secretaria de Saúde e a direção da própria unidade. As duas histórias carregam algo que raramente aparece nas notas oficiais: o mesmo gestor. E, na próxima quinta-feira, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Saúde, na Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, ouve sua primeira testemunha, justamente o presidente do conselho que enxergou o problema antes de todos, avisou por escrito e foi ignorado.
A CHEGADA
Para entender como a Saúde de Teixeira de Freitas foi parar nas mãos desse instituto, é preciso recuar ao tabuleiro político. No fim de janeiro de 2025, o prefeito Marcelo Belitardo, reeleito poucos meses antes na chapa de ACM Neto, sentou-se com o governador Jerônimo Rodrigues, elogiou os investimentos estaduais e deixou a porta entreaberta para uma aliança. Em maio, a porta virou trânsito: rompeu com o grupo de Neto e aderiu à base do governador petista. Em outubro, poucos meses depois, a rede pública de saúde do município, o Hospital Municipal de Teixeira de Freitas, o Sagrada Família e a UPA 24h, passou a ser operada, sob o Contrato de Gestão nº 3-997-2025, por uma organização social que atua dentro da rede estadual de saúde do governador Jerônimo Rodrigues.
A pergunta que nenhuma nota oficial se dispõe a responder é simples, e incômoda: a chegada desse gestor à cidade foi mérito técnico ou dividendo da nova aliança? Coincidências existem. Mas o calendário é teimoso e, em política, raramente é distraído. O detalhe que torna o roteiro mais áspero veio em abril. De pé, ao lado do governador em visita ao município, o prefeito saiu em defesa pública da gestão estadual da saúde e acusou a oposição de “desinformação”. Poucas semanas depois, seria o próprio Estado o aliado que ele defendia a decretar que o operador trazido para Teixeira não servia para tocar um hospital. E há um capítulo anterior, que a cidade vai reabrir na quinta-feira: esse contrato nasceu sob um alerta formal de ilegalidade. E seguiu adiante assim mesmo.
O ENSAIO AO LADO
Porto Seguro funciona como o ensaio do que se discute hoje em Teixeira de Freitas. O instituto assumiu o Hospital Regional em novembro de 2025 na condição de segundo colocado, convocado depois que o Estado encerrara o contrato com a gestora anterior. O socorrista, em poucos meses, virou paciente. E o que o corpo clínico levou a público antes do desfecho lê-se como um inventário do abandono: um tomógrafo apontado como parado havia mais de seis meses, sem alternativa para os exames, em uma unidade que opera neurocirurgia e alta complexidade; falta de materiais, de OPME e de medicamentos; enxoval em frangalhos, com relatos de ausência de roupas cirúrgicas, lençóis e cobertores; e, mais grave, a denúncia de água contaminada por superbactérias na unidade. Some-se a isso o atraso de salários — com relatos de que o último pagamento à equipe teria saído em fevereiro — e repasses de honorários médicos atrasados em cerca de sessenta dias, acompanhados de uma proposta da gestão para esticar o prazo de pagamento para até quarenta e cinco dias após o serviço prestado.
É de rigor registrar o outro lado: a administração nega os atrasos de repasse e sustenta que os serviços funcionavam regularmente. Mas quem encerrou o jogo não foi o corpo clínico nem a imprensa — foi o próprio Estado, que, após seu monitoramento técnico, decidiu pelo distrato e montou duas comissões, uma de transição e outra de monitoramento permanente, para impedir que a unidade desabasse durante a troca. Quando é o contratante quem aciona a saída, o atestado de incompetência deixa de ser opinião e vira ato administrativo.
A CONTA CHEGA EM CASA
O que se viu em Porto Seguro não fica bem na vitrine de quem entregou a Saúde da própria cidade ao mesmo gestor. E, em Teixeira, a conta não é abstrata: tem nome, idade e luto. Há poucos dias, a morte de Ana Paula Farias, 33 anos, gestante classificada como de alto risco, transformou o Hospital Municipal Sagrada Família em caso de polícia. A família relata sucessivas tentativas de indução e sustenta que condutas questionáveis podem ter contribuído para o desfecho fatal. A Polícia Civil instaurou inquérito, fez diligências na unidade e requisitou o prontuário. O instituto que gere o hospital lamentou a morte, afirmou que a paciente exigia acompanhamento especializado e garantiu ter seguido os protocolos e as boas práticas, prometendo colaborar com a investigação. A prefeitura, por sua vez, respondeu da forma mais eloquente que existe na política: demitindo. Trocou a secretária de Saúde e a direção do hospital sem explicar, até agora, os motivos das exonerações. Não é episódio isolado. Em abril, a morte de um jovem de 22 anos, após um procedimento que deveria ser simples, já havia levado familiares às ruas, em protesto diante das unidades de saúde, com a família denunciando um erro na aplicação de medicação. A certidão registrou causa indeterminada, e o laudo pericial foi cobrado. À época, foi o próprio Conselho Municipal de Saúde quem notificou formalmente a Secretaria, exigindo apuração em cinco dias úteis e advertindo que a ausência de resposta poderia gerar medidas legais.
Aqui é preciso ser justo e frio ao mesmo tempo. Nenhuma dessas mortes tem, por ora, nexo causal comprovado com a gestão — há inquérito, há perícia pendente, há contraditório a ser exercido, e a todos se deve a presunção de inocência. Mas o jornalismo não precisa de uma sentença para enxergar um padrão. Quando óbitos sob suspeita se acumulam sob o mesmo modelo de gestão, na mesma janela de tempo, a pergunta deixa de ser sobre um caso e passa a ser sobre o sistema que os tornou possíveis.
“O conselho de saúde acertou — e foi atropelado. Na quinta-feira, o alerta que a Prefeitura ignorou entra no inquérito.”
O AVISO EXISTIA DESDE O COMEÇO
É aqui que a história ganha seu detalhe mais incômodo. Muito antes da primeira morte, antes mesmo de o contrato existir, o órgão legalmente encarregado de zelar pela saúde pública do município já havia dito, por escrito, que aquilo não deveria acontecer. Em agosto de 2025,quase dois meses antes de o contrato ser assinado, o Conselho Municipal de Saúde emitiu uma nota técnica formal apontando que a terceirização avançava sem a deliberação prévia do conselho, como exige a legislação do SUS; sem justificativa técnica ou financeira; sem metas claras; e sem que o município jamais tivesse demonstrado ser incapaz de administrar os próprios hospitais. A conclusão do conselho foi direta: suspender ou anular o processo. O município assinou assim mesmo, em outubro de 2025. E, dois meses depois, o próprio estudo técnico preliminar — assinado digitalmente pelo prefeito — admitiu o que o conselho desconfiava: a contratação não estava sequer prevista no Plano de Contratações Anual da cidade, e foi justificada como uma necessidade “superveniente, excepcional e imprevisível”, uma alegação genérica de “agravamento das dificuldades estruturais” da Secretaria, sem números que a sustentassem. É, hoje, a defesa do Executivo: a de que terceirizar foi um juízo administrativo diante de uma crise. Mas é também a confissão de que o serviço foi entregue sem o planejamento que a lei exige — exatamente o que o controle social havia apontado.
O conselho não parou na nota. Em novembro de 2025, levou o caso ao Ministério Público Federal, em Eunápolis, questionando a terceirização feita sem submissão ao colegiado e com uso de recursos federais. Meses depois vieram as mortes sob investigação, a troca às pressas no comando da Saúde e o veredito do Estado, ali ao lado, em Porto Seguro — precisamente o tipo de desfecho que a sentinela tentara evitar.
Por isso a oitiva de quinta-feira não é o interrogatório de um vigia omisso. É o contrário: o órgão que acertou, e foi atropelado, terá enfim seu alerta registrado no inquérito da Câmara. O atual presidente do conselho herda essa memória institucional, e as respostas que der vão documentar o que o colegiado disse, quando disse e quem escolheu não ouvir.
O FIO QUE NINGUÉM QUIS PUXAR
No fim, a ironia desenha sozinha o retrato. O governo estadual que o prefeito defendeu de público acaba de mostrar a porta ao operador que o prefeito contratou. O mesmo gestor que o Estado considerou inapto a tocar um hospital regional segura, hoje, o bisturi sobre a saúde de Teixeira de Freitas. E o conselho que pediu para anular esse contrato antes da primeira assinatura será, só agora, formalmente ouvido sobre o que viu.
A presunção de inocência é devida ao gestor, ao prefeito e a todos os citados. Mas há fatos que nenhuma presunção apaga: o aviso existia, estava escrito, tinha data e fundamento — e a saúde da cidade seguiu justamente o caminho contra o qual fora advertida. Na quinta-feira, Teixeira de Freitas não vai descobrir se alguém avisou. Vai descobrir por que ninguém quis ouvir.
Fonte: Por Érico Cavalcanti Lêdo

